quarta-feira, 22 de julho de 2026

OPINIÃO: O PROGRESSO QUE ARRANCA AS RAÍZES DA CIDADE

 


Praças verdes não são inimigas da modernidade, são o próprio patrimônio da vida urbana




Tupanciretã, Rio Grande do Sul — Ano de 2026

Em nome do chamado progresso, surgem por toda parte os defensores da nova febre do concreto. Onde antes havia árvores frondosas, bancos à sombra e o agradável murmúrio das folhas, deseja-se agora instalar extensos pisos de cimento, calçadas e estruturas que, embora modernas aos olhos de alguns, podem transformar nossas praças em verdadeiros desertos de pedra.

É preciso perguntar: que espécie de progresso é esse que necessita destruir a sombra para construir o calor?

As árvores de uma praça não são simples obstáculos ao traçado de uma planta de engenharia. São patrimônio da comunidade. Sob suas copas descansam os trabalhadores, brincam as crianças, conversam os idosos e encontram alívio os cidadãos nos dias de sol ardente. Suas raízes ajudam a conservar o solo, suas folhas oferecem frescor e sua presença dá à cidade aquilo que nenhum bloco de concreto pode fabricar: vida.

A substituição indiscriminada de áreas verdes por cimento pode trazer consequências que os entusiastas da modernização talvez ainda não tenham considerado. Praças inteiramente pavimentadas tornam-se mais quentes durante o verão, absorvem o calor do sol e podem transformar o coração da cidade em uma verdadeira fornalha.

E quando chegam as chuvas, o problema não desaparece. Onde antes a terra e a vegetação recebiam parte das águas, o concreto impede a infiltração, fazendo com que a água corra com maior velocidade pelas calçadas e ruas. O que se ganha em aparência moderna pode perder-se em conforto, equilíbrio e segurança.

Não se trata de ser contra o progresso. Trata-se de perguntar que progresso desejamos.

Uma praça moderna não precisa ser uma praça sem árvores. Uma cobertura não precisa significar a eliminação de jardins. Calçadas e acessibilidade podem conviver com canteiros, gramados e árvores adultas. A verdadeira modernidade talvez esteja justamente em saber construir sem destruir aquilo que já funciona.

Pois uma cidade não é feita somente de concreto, telhados e ruas. Uma cidade também se mede pela sombra que oferece, pelo ar que se respira e pelo espaço que reserva à natureza.

Antes que a última árvore seja derrubada em nome do progresso, talvez seja prudente recordar uma antiga verdade: depois que o cimento seca, não nasce sombra dele.

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